Hoje eu quero voltar sozinho

Hoje eu quero voltar sozinho

Hoje eu quero voltar sozinho se passa em São Paulo, mas poderia não ser. A ausência de um cenário determinado para a trama é uma forma também de reafirmar o quão atemporal e ocasional ela pode ser. Não interessa ao longa problematizar, mas apresentar e aqui está seu ponto fraco.
Carolina Braga

Leo é fã da música de Bach. Não só isso: faz questão de diferenciá-lo de Vivaldi, assim como de Beethoven, entre outros compositores clássicos. Já sobre o som de Belle and Sebastian não conhece nada. Dançar, então, nem pensar. Ainda não deu o primeiro beijo e acha que nunca vai namorar alguém. Sim, Leo é diferente dos outros adolescentes da escola dele não apenas porque é cego.

A maneira menos óbvia como o diretor Daniel Ribeiro nos apresenta o que distingue o protagonista de Hoje eu quero voltar sozinho dos demais de sua geração é o que faz do filme também uma defesa pela necessidade de olhares menos preconceituosos no cotidiano. Haverá sempre o igual e o diferente. Ponto. Neste caso, seja por questões de deficiência, opção sexual ou simplesmente gosto musical. A questão – e a polêmica – passaria por como lidar com isso. Mas esse é um ponto que a produção não alcança.

Concebido como um desenvolvimento do curta Eu não quero voltar sozinho (2010), o longa vencedor do prêmio da crítica da última edição do Festival de Berlim não é uma continuação. É a mesma história, contada de forma muito parecida. Assim como o curta, Hoje eu quero voltar sozinho tem como norte o autodescobrimento de Leo, em competente composição de Ghuilherme Lobo (que não é deficiente visual).

Em um momento em que o jovem entra em atrito com os pais em busca de mais independência e liberdade, é surpreendido pela chegada de Gabriel (Fábio Audi) um novo colega de classe. O início de uma amizade fora do padrão o fará sentir coisas até então desconhecidas. Será obrigado a lidar com o ciúme da melhor amiga (Tess Amorim), a superproteção da família, além de experimentar algo totalmente inédito: o que é desejar alguém. E mais: do mesmo sexo que ele.

Por outro lado, curiosamente, o filme que pretende se afastar dos clichês, escorrega em alguns diálogos. São ingênuos – e desnecessários – por exemplo, a conversa sobre o que é ser intercambista e todos os atos-falhos envolvendo a cegueira. Como em nenhum momento a condição de Leo e seus amigos é dramatizada ou banalizada, torna-se de certa forma dispensável o fato dele ser convidado para “ver” um filme e aceitar. Não é preciso forçar graça. Ela é espontânea pela empatia que Leo, Gabriel e Giovana despertam.

Hoje eu quero voltar sozinho se passa em São Paulo, mas poderia não ser. A ausência de um cenário determinado para a trama é uma forma também de reafirmar o quão atemporal e ocasional ela pode ser. Não interessa ao longa problematizar, mas apresentar e aqui está seu ponto fraco. Se Leo e Gabriel ficarão juntos, se serão alvo de bulling na escola, se terão conflitos familiares quando revelarem a relação, são pontos que Daniel Ribeiro deixa por conta do romantismo de cada espectador. Essa abertura, faz de Hoje eu quero voltar sozinho um passo importante na cinematografia recente brasileira. Fica devendo, porém, na ousadia da discussão.

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